terça-feira, 3 de maio de 2011

Pedagogia da Alfabetização: da oralidade à escrita



No livro “Pedagogia da Alfabetização: da oralidade à escrita”[1], Eglê Pontes Franchi procura descrever os mecanismos da relação pedagógica desenvolvida entre alfabetizador e alfabetizandos e refletir sobre eles, a fim de explicá-los e sistematizá-los. A autora acrescenta que tomando sua obra como prática social e interativa, trata-se de um trabalho pedagógico e metodológico, contudo, não pretende criar uma nova forma de estudar a alfabetização.

Segundo Franchi, pretende mostrar um trabalho pedagógico de alfabetização que seja próximo do processo natural do desenvolvimento psicológico da criança. A formação dos conhecimentos é abordada como “construção” social e coletiva, considerando os usos sociais da linguagem. A autora coloca como pressuposto básico a alfabetização vinculada sempre a processos significativos e interativos. Com isso, Franchi optou por uma proposta que envolvesse a alfabetização na oralidade das crianças, através do diálogo, da discussão e da contradição.

Todo o trabalho de Franchi tem como base a pesquisa que realizou em uma classe de pré-primário, em uma escola estadual de 1º e 2º graus, com início em novembro de 1984. Eglê Pontes Franchi, professora, deu início a sua pesquisa aproximando-se da turma de crianças que assumiria no próximo ano. O motivo da aproximação era deixar as crianças à vontade em sua presença para que pudesse analisar a linguagem oral e “natural” das crianças e interagir com elas. Em um momento que chamou de “brincadeiras de círculo”, Franchi interagia com as crianças e gravava as conversas entre elas. Essas conversas eram posteriormente transcrevidas e analisadas.

A autora partiu do pressuposto de que as crianças já possuem um “saber” extremamente complexo da língua e dos variados recursos de expressão que ela contém, recursos esses que as crianças utilizam na expressão e comunicação oral. Durante as brincadeiras de círculo, Franchi observou que a fala das crianças era espontânea, mas quando percebiam a presença do gravador a fala das crianças mudava de formato. Com o tempo as crianças de acostumaram à presença constante do gravador e da pesquisadora. Tendo a autora ganhado a confiança da turma, pode participar das “rodinhas”, sendo que as crianças sugeriam as brincadeiras e Franchi ajudava com a organização de alguns aspectos.

Franchi destacou sua pesquisa em três fases: a primeira fase correspondeu à produção oral de textos pelas crianças, tendo a professora/pesquisadora como escriba; a segunda fase compreendeu a reconstrução dos textos pelas crianças com a orientação da professora; e na terceira fase as crianças passam a produzir seus próprios textos. Ao longo do livro, a autora cita três etapas para a aquisição da linguagem elaboradas por Miriam Lemle: 1) Hipótese de casamento monogâmico entre sons e letras; 2) As crianças substituem as generalizações da primeira etapa por sinais de insegurança e inquietação; 3) Estabelecem que haja certas regularidades contextuais entre fala e escrita.

Para as brincadeiras de círculo Franchi passou a levar diversos objetos, como brinquedos, roupas, fantasias, etc. As brincadeiras aconteciam como que em uma dramatização e as crianças utilizavam esses e outros objetos para compor seus personagens. A autora pode perceber que quando as crianças criavam um personagem, adaptavam sua fala ao personagem, assim distinguiam seu modo de falar de outros. Em diversos momentos relatados no livro a crianças demonstraram ter consciência da variação linguística e da aproximação ou distancia da língua padrão.

Durante uma das visitas a turma, a autora propôs uma brincadeira de adivinhação por meio da mímica. Dividiu as crianças em grupo e cada um deveria fazer gestos para que o outro adivinhasse o que queriam dizer. As interpretações eram muito limitadas aos gestos feitos e as crianças não conseguiam decifrar a mensagem completa. A pós esta experiência Franchi, em conversas com a turma, chegou à conclusão que a comunicação pela mímica, pelo ritmo, pela música ou por outras expressões corporais não é tão satisfatória quanto por meio das expressões verbais, ressaltando assim a importância da oralidade.

Ao longo dos encontros Franchi foi estabelecendo ligações entre fala e escrita, propondo brincadeiras que necessitavam da escrita e/ou da leitura, mas sempre de forma significativa e interessante para a turma. No segundo capitulo do livro, a autora procura ressaltar a concepção que as crianças fazem da escrita. Perguntando as crianças sobre esse tema, a autora descreve que a maioria das crianças atribui maior valor a leitura. Este valor está diretamente ligado a concepção dos pais sobre a importância de ler e escrever que, naquele momento, ainda não é realidade para a criança. A minoria das crianças apontou na leitura uma função prática, no caso, a de ler revistas e cartazes.

A pesquisa teve inicio no mês de novembro de 1984 e perdurou durante o ano seguinte, em que Franchi atuou como professora da turma. Ao longo do ano a autora/professora trabalhou a oralidade e a escrita sempre ligadas e por meio de atividades significativas (como dito anteriormente) como jogos e brincadeiras. Dessa forma, no decorrer do ano, a autora concluiu as três fases que destacou em sua pesquisa, que foram detalhadas e refletidas no livro, mas não aprofundadas neste texto.

Uma atividade interessante surgiu por iniciativa das crianças: os bilhetinhos. Franchi percebeu que as crianças se comunicavam durante as aulas por meio de bilhetes e, ao invés de inibir tal acontecimento, incentivou o uso dos bilhetes. Franchi passou a recolher esses bilhetes ao fim das aulas e a ler em voz alta para a turma. Com isso as crianças passaram a pedir ajuda para construir seus bilhetes. Perguntavam como era escrita uma palavra e a professora colocava no quadro para que copiassem. As crianças se preocupavam que a mensagem fosse compreendida.

Concluindo sua obra, Franchi destaca as principais reflexões vindas de sua pesquisa sobre a alfabetização da oralidade à escrita. Aponta que a linguagem deve ser concebida como uma atividade construtiva, histórica e social por meio da interação que, por sua vez vai construir significado e representações. Para a autora o aprendizado da escrita deve ser significativo e contextualizado, e essa contextualização se dá através da oralidade, respeitando a realidade linguística e dialetal da criança.

A autora ainda destaca que enquanto nas atividades orais se matem e desenvolve a criatividade verbal da criança, cabe ao professor/alfabetizador instrumentá-la nos aspectos técnicos da escrita, com base em pressupostos lingüísticos, cognitivos e psicológicos, respeitando uma hierarquia de dificuldades. Considerando essas características, a autora conclui que: “semeada no discurso oral, a escrita progride e desabrocha na produção efetiva de pequenos textos” (Franchi, 1988).



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[1] FRANCHI, Eglê. Pedagogia da alfabetização: da oralidade a escrita. São Paulo: Cortez, 1988. 359p.

Um comentário:

  1. Este resumo foi feito tendo como foco a questão da Oralidade. Para um maior aprofundamento na pesquisa de Eglê Pontes Franchi, acima citada, leia o livro. Vale a pena!

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